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Em oração à espera do Paráclito: Vem Espírito Santo!

Em oração à espera do Paráclito: Vem Espírito Santo!

 

Então, do monte chamado das Oliveiras, voltaram a Jerusalém. A distância é pequena: a de uma caminhada de sábado. Tendo entrado na cidade, subiram à sala de cima, onde costumavam ficar. Eram Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o Zelota; e Judas, filho de Tiago. Todos estes, unânimes, perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com seus irmãos (At 1,12-14).

 

Eis a primeira menção à oração nos Atos dos Apóstolos. Com essas palavras Lucas nos oferece as primeiras informações sobre a comunidade cristã de Jerusalém. Após a ascensão de Jesus ao céu, os apóstolos obedeceram ao pedido do Senhor, segundo o qual não deveriam se afastar da cidade até que o Espírito Santo fosse enviado (cf. At 1,8). Com efeito, conforme a compreensão teológica de Lucas, em Pentecostes a Igreja silenciosamente nascida no mistério Pascal do Cristo morto e ressuscitado, “nasce publicamente” para o mundo.

Os apóstolos voltam do monte das Oliveiras. Espaço-símbolo do mistério pascal, pois para ali Jesus se retirou após a última Ceia e foi preso para sofrer a Paixão (cf. Lc 22,39). Lucas, autor do Evangelho e dos Atos, faz coincidir o ambiente geográfico da prisão com o da ascensão. Trata-se, portanto, da moldura que requadra a experiência pascal do grupo cristão de Jerusalém. Jesus que saiu aprisionado do monte foi condição para que, após a ascensão, os apóstolos voltassem livres e portadores de uma novidade surpreendente: “Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da Terra” (At 1,8).

A presença do Espírito sobre os Apóstolos é presença fecunda que testifica a origem e o alcance divinos da missão recebida e da atuação a exercer. Se regressarmos ao relato da anunciação do Anjo a Maria, Contemplamos Gabriel dizendo-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com sua sombra, por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus”(Lc 1,35). Ao início da história terrena de Jesus, Deus encarnado, está a força do Espírito que desce sobre Maria, eleita para a missão de dar humanidade ao Verbo divino. Ao principiar a Igreja, corpo místico de Cristo (cf. 1Cor 12,12-30; Cl 1,18; Ef 5,23; Rm 12,4-5), eis novamente a força descendente do Espírito sobre os eleitos, orientados a conceber Cristo na fé, e trazê-lo à luz mediante as obras condizentes com sua opção fundamental por Jesus Cristo.

Para a sensibilidade lucana, a primavera da Igreja reverbera todo o mistério da entrada de Deus no mundo através da Encarnação do Verbo. O mesmo Espírito agente em Maria atua sobre os Apóstolos e a pequena comunidade de Jerusalém, impelindo-os ao anúncio do Evangelho. Assim como no relato da anunciação Lucas oferece alguns dados básicos sobre Maria (origem: Nazaré; condição social: virgem desposada com José; identidade: chamada Maria. Cf. Lc 1,26-27), também acerca da primeira comunidade cristã de Jerusalém nos fornece dados importantes.

Em primeiro lugar acena a uma “sala de cima, onde costumavam ficar”. Com isso nos conduz à mística do encontro que perfazia a índole comunional do primeiro grupo crente, constituído por cento e vinte pessoas mais ou menos (cf. At 1,15). A “sala de cima” aparece como ponto de convergência de uma identidade aglutinada na figura dos Apóstolos. Daí Lucas registrar o elenco dos seus nomes. Ou seja, a natureza mais íntima do grupo constantemente reunido na “sala de cima” extrai seu vigor dos Apóstolos, definidos como ministros da Palavra e testemunhas da Ressurreição (cf. At 1,22; 4,33; 6,2). A comunidade possui um rosto, não pode ser compreendida como um grupo social de pessoas alistadas por um simples ideal ou presunção. Os onze nomes mencionados evocam experiências diferentes com Jesus Cristo, imagem da multiplicidade de direção que conduz ao mesmo centro. O “presente” de cada apóstolo é o resultado do encontro entre Jesus e seu passado. Também o presente de cada crente na dinâmica da fé cristã traz consigo o emblema do “que se foi” confrontado com Aquele que oferece o “que se deve ser”.

Diversamente dos mitos pagãos, nos quais não há correspondência entre narrativa e realidade, a fé cristã se levanta sobre elementos factuais. A identidade da Igreja de Jerusalém planta raízes profundas no subsolo da história. E é precisamente a história o horizonte para o qual orientou-se o “Ide” de Jesus aos discípulos. Os Apóstolos são elo entre a densa carga de passado (convivência com Jesus) e a tarefa carregada de futuro (levar o Evangelho a toda criatura).

“Todos estes, unânimes, perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus”. O imperativo da oração coroa o quadro descritivo. Eram unânimes, isto é, viviam a comunhão profunda no crer e no sentir. Aqui a unanimidade não deve ser entendida como consenso simplesmente. É algo mais profundo e entranhado. Unanimidade concretamente traduzida na expressão conservada em At 4,32: “A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma”. Concordância no crer e no amar, no professar a fé e no vive-la, materializando-a em relações novas e sentimentos renovados. Cristãos que haviam compreendido a ordem de Paulo: “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5).

Não apenas perseveravam na oração, mas o faziam com Maria, mãe de Jesus. Aqui é a última vez que Maria é citada nos escritos de Lucas. E o qualificativo para sua pessoa é precisamente sua maternidade. Ela é mãe de Jesus. Segundo a ótica através da qual Lucas contempla o Mistério da Encarnação, tudo se dá tendo Maria por protagonista, diferente de Mateus, quando a figura-chave é José. Em Lucas é Maria quem recebe a orientação do Anjo: “E o chamarás com o nome de Jesus” (Lc 1,31). Assim sendo, Maria é a primeira criatura a quem foi dado conhecer o nome abençoado de Deus feito homem.

No Antigo Testamento elaborou-se uma profunda teologia envolvendo o nome de Deus. Moisés pergunta qual é seu nome (cf. Ex 3,13-15). O Nome Divino não pode se pronunciado (Cf. Ex 20,7; Lv 19,12), pois carrega em si a total transcendência do Altíssimo. No Novo Testamento Maria é destinatária do Nome, pois no mistério da Encarnação cumprido em seu seio virginal, Deus fez-se realmente “Emanuel”. Ao defini-la “mãe de Jesus”, Lucas a apresentou como a primeira a quem foi revelado tal Mistério, bem como aquela que a todos precedeu na ordem da fé (cf. Lc 1,45).

Perseverar na oração com Maria, mãe de Jesus, significa, portanto, contemplar a história como história da Salvação. Deter-se em atitude contemplativa ante os fatos nos quais Deus se deixa conhecer e amar (cf. Lc 2,51). Por outro lado, Maria aparece como juntura entre os Apóstolos expressamente nominados e os “irmãos de Jesus”, ou seja, sua parentela. No evangelho Lucas já nos havia oferecido pistas sobre a irmandade de Jesus. Disse Jesus: “Minha mãe e meus irmãos são aquele que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). Considerando o plano geral da obra lucana, é oportuno reconhecer que na primeira comunidade de Jerusalém, Maria é elo entre os eleitos por Jesus (Apóstolos) e os que elegeram a Jesus mediante a fé, a escuta e a prática da palavra (os crentes).

Na oração perseverante o grupo cristão descobre espaço privilegiado para a conservação de sua identidade de povo santo. Quando reza, a Igreja se percebe na integridade da sua vocação de povo da Aliança, como Maria, imagem e modelo de serviço humilde e abnegado à vontade de Deus. Recordada como primeiro traço distintivo da comunidade primitiva de Jerusalém, surge a oração como núcleo fundante de toda experiência eclesial. Com isso Lucas nos quer dizer que toda beleza da Palavra que se espalha e da Igreja que cresce no decorrer de sua narrativa, tem como força propulsora a oração perseverante dos corações crentes.

 

Viver em Cristo
Alfredo Belinato
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Alfredo Rafael Belinato Barreto. Sacerdote católico e monge co-fundador da Comunidade Monástica Oikokalos. Mestre e Doutor em Teologia pela PUCPR. Professor no Instituto Teológico São João Paulo II, Arquidiocese de Cascavel - PR.

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