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O Espírito na vida de Jesus

O Espírito na vida de Jesus

“Ele é o Senhor e dá a vida” (Concílio de Constantinopla, 381 DEC)

O Espírito Santo, terceira pessoa da trindade, acompanha o caminho histórico do Filho de Deus encarnado, do batismo no Jordão à cruz e ressurreição. O Espírito realiza uma Shekinah (uma morada) na missão de Jesus; constata-se o descer, o repousar, o autolimitar-se,  e o autorebaixar-se da Luz eterna sobre o Profeta da Galileia. A inabitação do Espírito leva a força vital de Deus em Jesus a uma efusiva plenitude. A atividade messiânica é realizada no Espírito de Deus.

Do Jordão à mansão dos mortos

Segundo os Evangelhos o Espírito conduz Jesus ao deserto: "O Espírito impele" (Mc 1,12); "O Espírito conduz" (Lc 4,1). Depois das tentações: "Com a força do Espírito Jesus retorna para a Galileia" (Lc 4,14). Segue o caminho da messianidade conduzido pelo Espírito.

O Espírito, por sua Shekinah, se liga ao destino de Jesus. O teólogo alemão, Jürgen Moltmann, na obra O Espírito da Vida: uma pneumatologia integral (2010) coloca-nos uma questão importante para nossa fé: Como o Espírito de Deus experimenta o viver e o morrer de Jesus?

Se o Espírito "conduz" Jesus, então ele também o acompanha. Se o acompanha, ele também se envolve no sofrimento, e passa a ser o companheiro do sofrimento de Jesus. Nesse caso, o caminho da paixão do Filho é também ao mesmo tempo o caminho da paixão do Espírito, cuja força se há de mostrar na fraqueza de Jesus. O Espírito é o lado transcendente deste imanente caminho de sofrimento de Jesus. Embora o Espírito encha Jesus com as forças vitais de Deus, pelas quais os enfermos são curados, ele não faz de Jesus nenhum super-homem, mas toma parte em seus sofrimentos até a morte na Cruz (MOLTMANN, VOZES, pp. 68-69).

O anúncio do reino de Deus, o poder terapêutico do Messias, os encontros com grupos vulneráveis e oprimidos, os enfrentamentos com autoridades e grupos religiosos, os deslocamentos junto às cidades do mar da Galileia, na Samaria e em Jerusalém e proximidades são intensamente vinculados à inabitação do Espírito.

A Carta aos Hebreus enfatiza a ação do Espírito na paixão e morte de Jesus. Cristo, pelo Espírito eterno, ofereceu-se como vítima imaculada a Deus (Hb 9,14). O Divino dá aos atos e padecimentos de Jesus a força divina que lhe é própria. Segundo a Carta, a expiação realizada pelo único e eterno Sumo Sacerdote que adentra ao véu do Santo dos Santos para obter o perdão dos pecados da humanidade dá-se pelo Espírito.

O drama do Getsêmani é vivenciado na companhia íntima do Amor que procede do Pai, nota-se um paralelo entre o deserto e a paixão. Aquele que o conduziu ao deserto o assiste no abandono. A fala de Jesus aos discípulos faz lembrar o deserto: "vigiai e orai para não cairdes em tentação" (Mc 14,38) No Jordão se ouve: "meu Filho muito amado"(Mt 3,17); no Getsêmani: "Abba, Pai querido" (Jo 17,1). Ambas as respostas ocorrem no Espírito. Por Ele e Nele Jesus caminha para a morte.

Partimos do fato e a história de Jesus ser ao mesmo tempo a história da paixão do Espírito de Deus, porém o Espírito não sofre da mesma maneira, pois ele é a força do sofrimento de Jesus, sendo até mesmo a “vida indestrutível” em cuja força Jesus é capaz de entregar-se em lugar “de muitos” (MOLTMANN, VOZES, 2010, p.70).

O caminho do Messias sofredor, que se inicia no Getsêmani e termina no Gólgota com na morte na cruz dos romanos, é acompanhado intimamente Divino.  Tem-se a ausência do Pai e a presença do Espírito. Nele Jesus suporta o abandono.

Os Evangelhos nos informam que Jesus foi retirado da cruz por José de Arimateia e Nicodemos, com a permissão de Pilatos. No entardecer da sexta feira foi sepultado num tumulo novo. O corpo morto do Senhor, resultado do mal deliberado e da iniquidade humana permanece na mansão dos mortos. Na madrugada do primeiro dia da semana acontece o evento mais extraordinário da história: o crucificado, morto e sepultado ressuscitou para a vida eterna. Torna-se o novo Adão, o primeiro novo homem da nova criação. O definitivo, completamente livre dos limites da matéria, do tempo, do espaço e do terreno de maneira geral. Trata-se da mesma pessoa, Jesus de Nazaré, o crucificado, mas com transformações insuperáveis. O nascimento do novo homem, do novo gênero da existência realiza-se por obra do Pai através do Espírito.

O Espírito: fonte da vida plena

O Espírito liberta Jesus da morte dando-lhe o novum eternum razão de nossa esperança na plenitude de todas as coisas. “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito” (1Pd 3,18).

A teologia paulina apresenta com profundidade a vida nova como dom do Espírito. Cristo, o novo homem, foi feito Espírito vivificante (1Cor 15,45). O Ressuscitado vive do e no Espírito eterno. O Espírito passa a ser o Espírito de Cristo.

A ressurreição de Jesus foi a evasão para um gênero de vida totalmente novo, para uma vida já não mais sujeita à lei do morrer e do transformar-se, mas situada para além disso, uma vida que inaugurou uma nova dimensão de ser homem. Por isso, a ressurreição de Jesus não é um acontecimento singular que possamos menosprezar e que pertença apenas ao passado, mas sim uma espécie de mutação decisiva. Na ressurreição de Jesus foi alcançada uma nova possibilidade de ser homem, uma possibilidade que interessa a todos e abre um futuro, um novo gênero de futuro para os homens (BENTO XVI, 2011, pp.198-199).

O Jesus histórico, profeta revolucionário da Galileia, cuidador da vida realizou a missão do reino na companhia do Espírito do Pai. Depois da ressurreição, o Glorioso torna-se sujeito do Espírito. Ele envia o Espírito (Jo 16,7), sopra o Espírito (Jo 20,22). A comunidade, por sua vez, recebe o Espírito do Ressuscitado, existe no espaço do Sopro. A Igreja é a antecipação e o início da nova criação que acontecerá no mesmo Espírito. Portanto, a reflexão paulina define a comunidade como templo do Espírito Santo, ou seja, a Igreja, Povo de Deus, é a casa do Divino que se encontra em kenosis ad extra na história e no mundo.

A Encíclica Dominum et Vivicantem (1986) de João Paulo II afirma que o Espírito Santo vem ao preço da partida de Cristo. Esse entregou seu espírito na morte. Depois o Ressuscitado vai aos discípulos para soprar o Espírito Santo. Segundo Moltmann, apesar da Encíclica apresentar uma tendência sacrificial, é uma excelente pneumatologia.

Existe a mutualidade trinitária entre o Espírito e o Filho de Deus. O Espírito  atua na história de Cristo com o Pai. Ele procede do Pai e determina o Filho. O Filho e o Espírito procedem simultaneamente do Pai. Há o eterno proceder do Espírito do Pai, a procissão do Espírito do Pai pressupõe o Filho.

Considerações finais

O Espírito nos impele, abre-nos à esperança. A presença do Espírito na comunidade é o único penhor do reino da glória. Significa a primavera da vida: novo e definitivo nascimento, a nova criação de todas as coisas. O Espírito que procede do Pai e do Ressuscitado restaura as esperanças e nos fortalece para a missão.

A vida pode ser negada, diminuída, humilhada e oprimida em várias dimensões. Refiro-me à perda dos direitos, à morte prematura, ao drama dos condenados da terra, às vítimas do mundo. Além disso, podemos negar a vida a nós mesmos tornando-nos injustos, violentos, odiosos e destruidores. Como devolver a vida àqueles que a perderam? O Espírito é a fonte da vida nova, capaz de recriar todas as coisas; devolver vida, liberdade, luz e alegria onde a condição humana foi pisoteada.

A terceira pessoa da trindade está em kenosis no mundo. Habita a Igreja, está kenoticamente escondido na carne humana como paráclito, defensor, protetor para nos consolar e nos livrar dos poderes do “príncipe deste mundo”. Ele atua na história soprando o vento dos valores evangélicos à humanidade. O cristão, por liberdade e amor, como opção fundamental decorrente da Sequela Christi (seguimento de Jesus) deve ser dócil ao Vento Divino. Na esteira de Agostinho, toda a tradição cristã sempre afirmou que a verdadeira liberdade está na docilidade à graça e ao acolhimento dos dons do Espírito em nossa contraditória existência.

Quais as realidades atuais que precisam da regeneração do Espírito?

Qual a novidade do Espírito para os cristãos na época do corona vírus?

Você é dócil ao Espírito?

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