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Pandemia e pobreza

Pandemia e pobreza

Um dia eu li que não estamos todos no mesmo barco. Estamos sim, no mesmo mar, mas em barcos diversos! Não deixa de ter sentido, num país que a cada ano avança uns degraus (leia-se recua) no ranking dos países de maior desigualdade social. Bem diz o famoso ditado francês, “tous les hommes sont égaux mais certains sont plus égaux que d'autres” (todos os homens são iguais mas uns são mais iguais que outros)! O Brasil não tem avançado nada em termos econômicos, isso é fato. Mas, o que muitos não atentam é que o pouquíssimo que ainda demonstra avançar, o faz deixando um rastro de concentração de renda. Traduzindo, os pouquíssimos mais ricos, aumentam a fatia no bolo em detrimento dos mais pobres.

Esse quadro, é per si nefasto e terrível para milhões de brasileiros que procuram emprego há anos ou que já desistiram de procura-lo. São atualmente cerca de 15 milhões, numa estimativa favorável! Ninguém sabe de fato o alcance da tragédia Covid 19 associada à crise política e à ineficácia do Governo Central. Saberemos mais tarde. Os que sobreviverem!

Ora, uma pandemia deste calibre nunca é esperada e sempre vai encontrar sistemas de saúde, por mais sofisticados e protegidos que sejam, desguarnecidos. Por quanto, os ditos sistemas de saúde, mesmo em países de primeiríssimo mundo, foram elaborados e construídos para atender as demandas normais dos seus cidadãos. Nos países pobres até nisso são deficitários. A Europa e os EUA sentiram de perto uma saturação de suas capacidades hospitalares. A pandemia do Covid é democrática entre aspas. Aliás, ela pode se dizer igualitária ao atingir em tese todas as classes, mas se começou nas que podiam apanhar aviões, e atravessar oceanos, está avançando sem pena nem dó sobre periferias faveladas. O ficar em casa, como recomendação insuspeita de atual única proteção contra o vírus, também parece ser injusta no desigual contexto. A palavra “casa” nem sempre é símbolo de lar. Isso já sabíamos. Mas para uma enorme parcela da população, nem é sequer um canto de refúgio com o mínimo de privacidade. Sete pessoas em dois cômodos sem esgoto e pouco ar puro para respirar. Este triste quadro que se tornou um postal a preto e branco, das periferias das nossas grandes cidades, converteu-se também no trilho por onde desliza o não tão democrático inimigo invisível do momento. Pobre, negro ou os dois em simultâneo, morrem deveras mais, com o Covid.

No passado, numa pandemia similar, o que mais matava era a falta de informação. Até que se descobrisse que o contágio físico era a causa da enorme mortandade que afetava ricos e pobres, às vezes já era tarde. Hoje debocha-se da informação, acredita-se em fake News e flerta-se com a morte, que nos ronda 24 horas por dia neste Brasil que virou as costas à ciência. O amadorismo, o cinismo mórbido e a impotência, convivem nas ruelas de nossas favelas e os mortos são enterrados do jeito que vieram ao mundo – anônimos e sozinhos. A teoria do menos um, cai que nem um chapéu, no Brasil que alguns teimam em construir no momento.  Bandido bom é bandido morto, pobre bom é o que desaparece sem deixar rastros, do jeito que apareceu! Não têm lugar nas estatísticas porque escapam dos “números oficiais”. O Covid-19 está reduzindo significativamente o número dos que fazem fila para benefícios estatais.

A pobreza não é uma calamidade natural. Não é uma tragédia inesperada. Ela é estrutural e se aprofunda ou se reduz mediante atitudes, programas e políticas públicas adequadas. Força de vontade, e determinação nacional em tornar o país mais igual e fraterno. O mundo está repleto de países que deixaram a pobreza para trás ao longo de décadas e outros que infelizmente massacraram a classe média e viram aumentar os pobres. O Brasil mesmo, já conheceu períodos melhores e piores quanto ao seu IDH e à eliminação da pobreza e da miséria. O que é certo para nós é que pandemias, devoram como palha seca as classes mais desfavorecidas e o fazem pelo óbvio: elas não têm proteção nem capacidade de se proteger! São como medievais que morassem fora do feudo e do castelo em época de invasões bárbaras! Presas fáceis e desprezadas pelos que estão dentro!

Mas a desigualdade nos dá uma tremenda lição. Pobres para o Covid- 19, não são “bois de piranha”! O vírus avança com o uso de hospedeiros e é insaciável. Um país sentirá na carne o preço de sua desigualdade social. Se os mais ricos o trouxeram para o Brasil em suas viagens e depois ele matou os mais pobres, lembremo-nos que num terceiro momento os mais favorecidos poderão morrer por saturação do sistema de saúde. O vírus nos desmascarou e nos evidencia uma solidariedade que às vezes queremos ignorar. Mesmo não estando no mesmo barco, estamos no mesmo mar e isso para efeito de morte ou vida é um fator importante.

Resumindo, o Brasil de hoje teve as suas vísceras postas ao léu, e esperemos que tire as suas lições. Ou todos avançamos ou todos morreremos!

E eu pergunto:

  • O leitor ainda acha natural as segregações habitacionais criando uma cultura de desconfiança?
  • O leitor ainda acredita que um faz de conta de normalidade é o melhor caminho para se (con)viver no país?
  • O leitor deixa que a polarização que nos devora atualmente lhe roube o discernimento quanto a esta questão levantada:?

 

Manuel Joaquim R. dos Santos

Padre na Arquidiocese de Londrina

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